Quando a desorganização vira cultura:
- Luciane J. Kamphorst Bes

- há 41 minutos
- 3 min de leitura

Os riscos psicossociais que ninguém quer enxergar
Durante muito tempo, falar de saúde emocional no trabalho foi tratado como algo subjetivo, quase intangível. Hoje, com a atualização da NR-01 e o reconhecimento dos riscos psicossociais, essa discussão deixa o campo do discurso e entra definitivamente no campo da gestão, da prevenção e da responsabilidade organizacional.
O que muitas empresas ainda não perceberam é que os riscos psicossociais raramente surgem de um único fator isolado.
Eles são, quase sempre, o resultado de uma cultura organizacional desestruturada, mantida ao longo do tempo por omissão, improviso ou falta de maturidade na gestão de pessoas.
O mito do risco emocional individual
É comum associar riscos psicossociais apenas a:
• Excesso de trabalho
• Pressão por metas
• Jornadas extensas
Esses fatores existem, mas não são a raiz do problema.
Na prática, o adoecimento emocional surge com mais força em ambientes onde há:
• Falta de clareza de papéis• processos mal definidos
• Conflitos recorrentes mal conduzidos
• Decisões incoerentes
• Comunicação insegura
Quando o colaborador não sabe exatamente o que se espera dele, quando as regras mudam conforme a conveniência ou quando o erro vira motivo de punição em vez de aprendizado, o ambiente passa a operar em estado constante de tensão.
Conflito mal gerido é risco psicossocial
Conflitos são inevitáveis em qualquer organização. O problema não é o conflito, mas a ausência de maturidade para mediá-lo.
Ambientes onde o diálogo é substituído por processos punitivos, silenciamento ou judicialização precoce tendem a gerar:
• Medo de se posicionar
• Retração emocional
• Queda de engajamento
• Aumento de afastamentos
• Desgaste nas relações de trabalho
Esse cenário não gera justiça organizacional. Gera adoecimento coletivo.
Quando a cultura se torna o próprio risco
Cultura organizacional não é aquilo que está escrito nos valores da empresa. É o que acontece todos os dias, especialmente quando surgem problemas.
Quando a desorganização é normalizada, ela deixa de ser um erro pontual e passa a ser estrutura. Nesse ponto, o risco psicossocial não está mais no indivíduo, mas no sistema.
E sistemas adoecidos não produzem ambientes saudáveis — apenas pessoas tentando sobreviver emocionalmente ao trabalho.
O papel da NR-01 na prevenção real
A NR-01 não foi criada para punir empresas, mas para prevenir riscos.
No contexto psicossocial, prevenção significa:
• Mapear processos e responsabilidades
• Estruturar canais de comunicação claros
• Capacitar lideranças para lidar com pessoas
• Criar critérios objetivos para decisões
• Tratar conflitos antes que se tornem litígios
Sem estrutura, qualquer tentativa de cuidado emocional se torna superficial.
Responsabilidade é uma via de mão dupla
Ambientes saudáveis não se constroem com medo, nem com permissividade extrema. Eles exigem responsabilidade compartilhada.
A empresa precisa oferecer estrutura, clareza e liderança preparada.
O colaborador precisa compreender seu papel, seus limites e suas responsabilidades.
Quando um desses lados falha, o risco psicossocial cresce.
Saúde emocional começa na liderança
Lideranças despreparadas emocionalmente são um dos principais fatores de risco nas organizações modernas. Não por má intenção, mas por falta de formação adequada para lidar com:
• Conflitos
• Frustrações
• Expectativas
• Limites
• Comunicação difícil
Cuidar da saúde emocional no trabalho é, antes de tudo, cuidar da qualidade da liderança.
O caminho sustentável
Não precisamos de mais discursos sobre bem-estar.
Precisamos de estrutura, processos e maturidade organizacional.
A prevenção de riscos psicossociais começa:
• Na cultura
• Na liderança
• Na clareza
• No diálogo
E se sustenta no compromisso diário com ambientes de trabalho mais conscientes, humanos e responsáveis.

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